quinta-feira, 21 de maio de 2015

DIVERSIDADE CULTURAL - O MARACATU

Num país com uma territorialidade tão extensa como a nossa, a diversidade cultural é mais comum do que se pensa, e, por vezes, nos causam até estranhamentos.

O Maracatu  é uma destas manifestações, uma mistura das culturas ameríndias, africanas e europeias, concentrada mais  nos Estados do Nordeste, mas hoje tem alcance em quase todo o Brasil, África, Canadá, França, Alemanha, entre outros.
Recebemos estas fotos de uma Festa de Maracatu, realizada na cidade de Nazaré da Mata, Estado de Pernambuco, vistas sob a lente de um Italiano amigo nosso, que aqui esteve em 2012, Riccardo Iorio. A ele nossos agradecimentos por esta contribuição.
Hoje, tido como uma manifestação carnavalesca por estas comunidades, sua história remonta à escravidão, e a hipótese mais difundida é a de que teria surgido à partir das coroações e autos do Rei do Congo, prática implantada no Brasil supostamente pelos colonizadores portugueses e, por consequência, permitida pelos senhores de escravo.
Os eleitos como rainhas e reis do Congo eram lideranças políticas entre os cativos: intermediários entre o poder do Estado Colonial e as mulheres e homens de origem africana. Destas organizações teriam surgido muitas manifestações culturais populares que passaram a realizar encontros e rituais em torno dessas representações sociais, originando o Maracatu do Baque Virado, que também estabeleceu ao longo dos anos em diversos "agrupamentos" uma forte ligação com a religiosidade do Candomblé ou Xangô Pernambucano.
Estivemos pesquisando e constatamos que, apesar de fazer parte importante de nossa cultura, até aquele ano (2012) não se encontrava registrado no IPHAN, (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), como Patrimônio Cultural Imaterial.  Contudo, o devido registro foi feito em Dezembro de 2014 .
Para acompanhar as fotos tiradas por Ricardo Iorio, optamos por acompanhá-las de um trecho do livro Maxombas e Maracatu de Mario Sette, de 1948.
Vejam que, entre o texto e as fotos passaram-se 64 anos, mas parecem feitos do mesmo momento histórico.

Eram típicos no carnaval de antigamente. típicos, numerosos, importantes, suntuosos. No meio do vozerio da mascarada, dominando as marchas dos cordões, ouvia-se ainda longe o rumor constante, uniforme, monótono dos atabaques:
Bum...bum...bum...bum
Bum...bum...bum...bum

Era um maracatu. Havia os que gostavam dele e esperavam-no com curiosidade. Havia os que protestavam contra a revivescência africana e resmungavam.
Bum…bum…bum…bum… No fim da rua, por cima do povo, surgia o grande chapéu de Sol Vermelho, rodando, oscilando, curvando-se. 

E o batuque cada vez mais perto, mais perto. Dali a pouco desfilava o cortejo real dos negros

Vinha o rico estandarte com cores vivas e bordados a ouro. 


Traziam fetiches religiosos nas mãos

Depois o Rei e a Rainha, em trajes majestosos, debaixo da ampla umbela de seda encarnada com franjas douradas. Empunhavam os cetros, vestiam longos mantos, e tinham cabeças coroadas.

Na retaguarda do préstito, os atabaques, as marimbas, os congás, os pandeiros, as buzinas… As canções que todos entoavam eram ordinariamente nostálgicas, como uma ancestral saudade da terra de berço, ficada tão distante. Costumavam também cantar assim:
Bravos, Ioio! Maracatu Já chegou.
Bravos, Iaia! Maracatu vai passar.
Uma das mulheres empunhava uma grande boneca de pano toda engalanada de fitas, e repetia numa toada dolente:
A boneca é de seda…
A boneca é de seda… 


Os maracatus paravam em frente às casas dos protetores e ali dançavam durante alguns minutos. Antigamente licenciavam-se dezenas deles e apresentavam-se com verdadeiro luxo. Nas sedes havia demoradas festas, com danças e batuques, a que assistiam os soberanos sob um dossel de veludo.


Todos os negros da costa, tão comuns no Recife de ontem, aqueles mesmos que se reuniam , também, religiosamente, na Igreja do Rosário, lá se achavam para tomar parte no toques. O maracatu hoje escasseia e já não tem mais o esplendor de antes. Em menino eu tinha medo dos maracatus. 


Medo e como uma espécie de piedade intraduzível. Aqueles passos de dança, aqueles trajes esquisitos, aqueles cantos dolentes, me davam uma agonia…Eu me encolhia todo, juntando-me à saia de chita de minha mãe preta, com receio talvez de que os negros do maracatu a levassem também. E eu não sabia ainda ser o maracatu uma saudade…Hoje é que a compreendo, que a sinto, recordando os maracatus de minha infância e de minha terra, vendo os carnavais de outras cidades e de outra época… Parece-me perceber ainda o batuque longínquo, cada vez mais remoto, cada vez mais indeciso, quando, na alta noite da terça-feira, no silêncio e na tristeza do Carnaval acabado, o derradeiro maracatu se recolhia à sede…
Bum…bum…bum…bum…
Bum…bum…bum…bum…
E lá se ia, como se foi, o meu maracatu de menino…” 
  
                                                CRÉDITOS
Texto Extraído de: http://maracatu.org.br/o-maracatu/breve-historia/


Posts publicados originalmente em http://sabedoriapopular.blogs.sapo.pt/61307.html
e http://intercambiando.blogs.sapo.pt/74583.html estes da mesma autora deste blog.


Ricardo Iorio - autor das fotos.


Evolução da Bateria do Estrela Brilhante Carnaval de 2015


quinta-feira, 7 de maio de 2015

AS ARTES E A DITADURA NO BRASIL

Temos batido na tecla de que é preciso "CONTEXTUALIZAR" o momento da produção das obras de arte, em todas as suas linguagens, para que possamos ter uma leitura mais apropriada delas.

Outro dia, entre outros textos com a temática "TEMPO", lemos a letra da música de Gilberto Gil "TEMPO REI". Os alunos tiveram dificuldade em entender seu sentido e interpretá-la. Alguns tiveram dificuldade até em encontrar um ritmo de leitura, onde fosse possível encontrar sua poética, pois é um texto aparentemente fragmentado. Mas se encontrarmos o ritmo de sua leitura e entendermos sua proposta, faz todo sentido:

Não me iludo
Tudo permanecerá
Do jeito que tem sido
Transcorrendo
Transformando
Tempo e espaço navegando
Todos os sentidos...

Pães de Açúcar
Corcovados
Fustigados pela chuva
E pelo eterno vento...

Água mole
Pedra dura
Tanto bate
Que não restará
Nem pensamento...

Tempo Rei!
Oh Tempo Rei!
Oh Tempo Rei!
Transformai
As velhas formas do viver
Ensinai-me
Oh Pai!
O que eu, ainda não sei
Mãe Senhora do Perpétuo
Socorrei!...

Pensamento!
Mesmo o fundamento
Singular do ser humano
De um momento, para o outro
Poderá não mais fundar
Nem gregos, nem baianos...

Mães zelosas
Pais corujas
Vejam como as águas
De repente ficam sujas...

Não se iludam
Não me iludo
Tudo agora mesmo
Pode estar por um segundo...

Tempo Rei!
Oh Tempo Rei!
Oh Tempo Rei!
Transformai
As velhas formas do viver
Ensinai-me
Oh Pai!
O que eu, ainda não sei
Mãe Senhora do Perpétuo

Socorrei!...(2x)

Mas, se ainda tivermos dúvidas, se fizermos uma análise da situação política/cultural e social da época em que ela foi escrita, provavelmente fará mais sentido.
Tem um post excelente na EBC BRASIL que poderá nos mostrar muitos caminhos para essa interpretação.

Vamos ouvir a música. Escolhi esta publicação, pois o som é bem superior às gravadas anteriormente. Ela faz parte do CD "GILBERTO GIL UNPLUGGED ( OU ACÚSTICO).
E agora? Tudo não está fazendo sentido?

quarta-feira, 6 de maio de 2015

LITERATURA DE CORDEL, UMA FORMA DE ARTE!

Estamos trabalhando com os segundos anos a linguagem do teatro, cujo tema é "Eu tenho o Direito". Como até agora apenas uma equipe conseguiu concluir o trabalho e estamos percebendo que as outras estão com uma linguagem pouco inventiva sobre o assunto, e, uma das coisas que pautamos nesta disciplina é exatamente a criatividade, estamos postando aqui um vídeo muito interessante, onde o artista Maviael Mello, poeta e repentista, nos mostra como esse tema pode ser bem mais rico e pode FUGIR DO ÓBVIO, que é algo que temos batido muito nesta tecla.


Sobre qual direito Maviael nos fala neste vídeo? É possível construirmos um texto teatral que, assim como Maviael, nos mostra que temos um direito que não está sendo atendido?
Lembram quando postamos que, todas as linguagens da arte podem:
Contar uma história,
Fazer uma reinterpretação dela
Passar uma ideia ou um conceito
Protestar
Quebrar tabus
Apontar problemas
Idealizar soluções
Exprimir sentimentos
Retratar sonhos e alucinações
Registrar o inconsciente
Diluir formas
Modificar formas
Denunciar
Escrachar
Satirizar
Falar de amor, ódio, da vida Cotidiana, da Mitologia
Ou simplesmente proporcionar uma experiência estética, sem nenhuma outra pretensão.

Maviael usou a Literatura de cordel, o humor, a sátira, para denunciar, para escrachar, exprimir sentimentos, protestar, apontar problemas e nos dizer que nosso direito A UM BOM POLÍTICO não está sendo atendido.

Não é uma riqueza só?

Abaixo a forma visual da Literatura de Cordel. Este trabalho é do Aluno Eliabe Pereira de Souza do 3º Médio C.
Embora seja uma temática anteriormente trabalhada e não esta do "Eu tenho Direito", o aluno optou por fazê-la em quadrinhos.
Este trabalho tanto pode ser inserido como Histórias em Quadrinhos, como também pode ser inserido como a forma visual da Literatura de Cordel, que, na maioria das vezes vem acompanhada do poema ou da poesia, que depois é recitada em ritmo apropriado pelo repentista ou poeta.
Quando visitamos o Nordeste Brasileiro encontramos lá muitos souvenires com estas temáticas.